No final de semana, eu tirei um dia de verdadeira folga: computadores desligados, celular deixado em minha pasta, campainha do telefone fixo desligada. Passei 24 horas completamente desconectado. É um movimento que vem ganhando cada vez mais força na blogosfera e também no mundo empresarial.
O motivo dessa mudança foi natural e previsível. Ao voltar para casa da Europa, no ano passado, usei meu cartão de crédito em um dos telefones instalados a bordo do avião para verificar meu e-mail, e com isso me privei de um dos meus dois últimos santuários. À aquela altura, o único outro refúgio que me restava era o sono, mas desenvolvi o hábito de manter um laptop ligado na beira da cama para que pudesse verificar e-mails, antes de dormir e ao acordar.
Aprendi como transformar meu organizador pessoal em modem, para poder usar a Web no trem. E evidentemente também usava o aparelho da maneira convencional, atendendo as ligações recebidas.
Em resumo, meu nome é Mark, e sou viciado em tecnologia. Mas depois de minha experiência no avião, decidi que faria alguma coisa a respeito. Assim dei início ao meu "dia santo laico", termo que li em mais de um blog, reservando um dia da semana em que não deixaria que telas, bipes e sinais sonoros dominassem minha vida. Um dia antiquado, não só de descanso mas também de alívio.
Como muita gente, porém, eu imaginei se abandonar meu vício seria inteiramente benéfico. Fiquei preocupado com os colegas, amigos, filhas, pais e assim por diante que dependiam de mim, todas aquelas pessoas que sabiam que, quer eu estivesse em casa ou na rua, eu atenderia aos seus chamados, se não imediatamente com certeza antes do final do dia. E se alguma coisa importante estivesse acontecendo, algo que não pudesse esperar 24 horas por minha atenção?
Ou será que eu havia me tornado só mais um daqueles norte-americanos que sofrem do mais recente distúrbio da vida americana, o vício em Internet? Como membro da geração baby boom, eu sabia que meus pensamentos certamente eram compartilhados por mais gente; os norte-americanos nascidos entre 1946 e 1964 sempre se tornam parte de tendências.
E bastou que eu começasse a procurar para descobrir outras pessoas que sentem a necessidade de se desconectar, de tentar reencontrar coisas reais em lugar das virtuais, uma forma de folga moderada mas cuidadosamente observada do mundo do marketing onipresente e do esforço necessário a acompanhar tudo que acontece.
E isso não é surpresa, disse o Dr. David Levy, professor da Escola de Informação da Universidade de Washington. "O que está acontecendo agora é insano", ele disse, assegurando que havia escolhido a expressão deliberadamente. "Levar uma boa vida requer uma espécie de equilíbrio, algum silêncio. Há questões sobre os limites da mente e do corpo, e podemos traçar um paralelo com o movimento ambientalista", nisso. (Levy cunhou o termo "ambientalismo da informação". "Quem diria que uma pessoa não precisa de tempo para pensar e refletir, se deseja sucesso e produtividade?", ele questiona.
Desconexão
O movimento de desconexão parece vir ganhando força em todas as partes, da blogosfera, onde gente altamente conectada como Ariel Meadow Stallings (http://electrolicious.com/unplugged) se vangloria de desligar as máquinas durante um dia por semana (e do número de bons livros que isso permite ler), até o mundo empresarial.
Por exemplo, Nathan Zeldes, vice-presidente de engenharia da Intel (empresa cujos funcionários lêem ou enviam três milhões de mensagens de e-mail ao dia), está conduzindo duas experiências, uma das quais envolve ficar sem usar a Internet ou e-mail durante uma manhã por semana, no trabalho, e a outra que envolve uma redução deliberada do volume de e-mail que uma pessoa envia.
Ainda que ele não esteja reportando resultados, diz que está animado com o número de adesões. "Até mesmo líderes empresariais agora acreditam que você precise de tempo para ouvir a voz interior", disse Anne Dilenschneider, consultora de espiritualidade em Montara, na Califórnia. "E esse tempo não precisa ser um dia, nem mesmo um período específico, ou qualquer atividade ou falta dela. Não estamos falando de uma meditação zen, mas de simples solidão".
Mesmo sem meditação zen (o que bastaria para me convencer a não aderir), descobri que é difícil respeitar o conceito de um dia santo laico. Desligar os eletrônicos é simples, mas transformar essa idéia em hábito é bem mais complicado.
Em meu primeiro final de semana de silêncio online, no final do ano passado, me apressei a desligar tudo em uma noite de sexta-feira, me deitei e apanhei um livro. Acordei nervoso, ávido por usar o laptop. Já que aquilo estava proibido, apanhei o telefone. Não, também proibido. Mensagem de texto? Logo percebi que minha sensação era idêntica à que me toma quando falta luz, e pulo de aparelho em aparelho para ver se algum está funcionando.
Consegui me controlar, li o jornal inteiro (sem links), e tentei me convencer a fazer nada. Isso me conduziu a uma longa caminhada (sem MP3), uma soneca e a mais leitura, dessa vez a de um verdadeiro romance. Tomei chá de ervas (cafeína não ajudaria), olhei pela janela, e tentei ser menos voluntarioso, não me preocupar com tudo que poderia estar se empilhando no meu ciberespaço pessoal, em minha ausência, não imaginar o quanto eu estaria ocupado para responder a tudo, na manhã seguinte.
Mas consegui me adaptar, gradualmente, ao longo dos finais de semana seguintes ¿ um dos quais envolveu manter todo o equipamento desligado da noite de sexta à manhã de segunda. Mas a recaída não demorou. Havia coisas importantes a fazer ¿prazos a respeitar, comunicação urgente.
Vocês sabem como é. Liguei para Andrea Bauer, executiva e conselheira de carreiras em San Carlos, Califórnia. Ela me garantiu que, por mais estranho que pareça, parar de trabalhar dá o maior trabalho. "Os formatos variam de pessoa a pessoa, e é preciso começar aos poucos. Ninguém sai correndo oito quilômetros se nunca tiver praticado jogging".
Não estou lançando um apelo pela busca de paz interior, como não proporia um retorno ao mimeógrafo. Mas creio que seja preciso encontrar uma forma de impor calma e ponderação à vida moderna, ou minha versão dela.
Depois de superar o medo do que a falta de conexão poderia me custar, cheguei a um estado que definiria, se não fosse tão cético, como "leveza interior". Estava conectado a mim mesmo e não ao computador. Tinha tempo para pensar, me distanciar das exigências cotidianas. Consegui parar.
Tradução: Paulo Migliacci ME
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